A caminho do farol o silêncio é o terceiro ocupante do velho Honda que conduzo. As luzes desenham formas curiosas no alcatrão e Inês parece-me atenta a isso. Não puxo conversa, não sei o que dizer.
O rádio toca, RFM como sempre, Oceano Pacífico a esta hora.
Reconheço a voz que nos envolve vinda das colunas mais velhas ainda que o próprio carro. Norah Jones...
Something has to make you run
I don't know why I didn't come
I feel as empty as a drum
I don't know why I didn't come
Perfeito... sinto que Inês leva delicadamente as mãos ao rosto para limpar uma ou outra lágrima.
- O teu carro está cheio de pó, entrou-me qualquer coisa para o olho.
Não digo nada, não queria que se sentisse mais fragilizada ainda.
Chegamos ao farol. A noite escura, o vento a sacudir o carro e a chuva em rajadas avisava-nos que o local tinha sido uma péssima escolha. Mas neste momento o mundo à nossa volta podia desabar. O nosso reencontro estava a acontecer.
- Chegámos...
- Sim. Inês, eu...
Sem me deixar continuar, sinto os seus lábios húmidos nos meus. Não sei se é a sua saliva que me beija se as lágrimas. Mas nada me importa já... quero-a tanto. Os anos que passei de corpo em corpo em busca dela parecem-me completamente vãos. Nunca senti nada assim com ninguém.
O seu corpo está diferente nas minhas mãos. Mais solto, mais ardente, mais desinibido. O carro que tanta vezes me viu a fazer amor com esta adolescente, presencia agora esta mulher que se fez à custa de Deus sabe lá o que...
Estiveste tão distante todos estes anos, sussurro-lhe ao ouvido.
Ela pára, olha-me nos olhos, beija-me longamente e, de olhos abertos fixos nos meus, entre lábios, diz-me, estive sempre contigo...
As palavras que mais ansiara nas tardes longas à janela em que esperei o seu regresso, não me sabem a muito... No meio de tanto prazer, de tanto calor entre nós, sinto que o tempo deixou a sua marca, e afinal, o amor que pensava eterno, diluíra-se na chuva dos dias...
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Sem Ti (R) - capítulo VI
Entro no carro e, quando estou prestes a arrancar, o telemóvel toca.
- António, que se passa? A Joana telefonou-me a chorar, sem conseguir articular uma palavra. O que foi que aconteceu?
- A sua filha está grávida D. Cristina.
- O quê? Mas isso é... fantástico. Parabéns meu querido, mas porque chora ela? E, agora não me atende o telefone. Eu vou para aí.
- Venha sim D. Cristina, assim ela aproveita logo para lhe dizer quem é o pai!
Um silêncio sepulcral do outro lado do telefone diz-me que é melhor desligar.
As pessoas passam a vida iludidas que foram os melhores pais, as melhores mães, os melhores filhos, irmãos, mulheres ou amantes, mas quando a realidade lhes bate a porta não sabem como reagir.
Triste, arranco com o carro com destino incerto, curvo já com alguma velocidade e por pouco não atinjo o grupo de cães que ainda não perdera a esperança com a cadela frankenstein. No fim da rua há um semáforo que está vermelho, não abrando, o que poderá acontecer? Depois de um dia assim, nada mais me pode acontecer.
Ontem eu era um simples empregado de mesa, com o seu ordenado mínimo certinho, a sua companheira que mesmo sem amor o ajudava a passar as noites frias e um cesto cheio de recordações guardado numa arrecadação de que perdera a chave. Hoje não sou nada. Um homem traído pela companheira e pela vida a acelerar num rua molhada, de olhos marejados de lágrimas, a tentar fugir ao inevitável.
Travo a fundo porque alguém está na passadeira, o carro desliza e por pouco não atropelo aquela pobre alma que como eu vagueia.
Baixo a cabeça com vergonha. O vulto aproxima-se do carro. Limpo as lágrimas. Só o que me faltava, uma discussão para acabar o dia em cheio.
Faço o vidro deslizar até meio como precaução. Há uma graciosidade nos movimentos do estranho que me é familiar, um jeito que ao se aproximar começo a reconhecer. Sinto o coração parar quando me apercebo de quem é. Tantos anos passados sem uma notícia, sem uma novidade, e num dia só, é a segunda vez que nos encontramos.
Sem dizer nada, faço um gesto para ir à roda e abro-lhe a porta. Ela senta-se e eu sinto-me recuar anos. Aquele cheiro, aquele olhar, aquele sorriso, aquelas mãos.
- Onde queres ir?
- Vamos ao farol.
- Vamos...
Parto em direcção ao cabo sem pressas, como se a correria em que estive tantos anos tivesse deixado de repente de fazer sentido.
- António, que se passa? A Joana telefonou-me a chorar, sem conseguir articular uma palavra. O que foi que aconteceu?
- A sua filha está grávida D. Cristina.
- O quê? Mas isso é... fantástico. Parabéns meu querido, mas porque chora ela? E, agora não me atende o telefone. Eu vou para aí.
- Venha sim D. Cristina, assim ela aproveita logo para lhe dizer quem é o pai!
Um silêncio sepulcral do outro lado do telefone diz-me que é melhor desligar.
As pessoas passam a vida iludidas que foram os melhores pais, as melhores mães, os melhores filhos, irmãos, mulheres ou amantes, mas quando a realidade lhes bate a porta não sabem como reagir.
Triste, arranco com o carro com destino incerto, curvo já com alguma velocidade e por pouco não atinjo o grupo de cães que ainda não perdera a esperança com a cadela frankenstein. No fim da rua há um semáforo que está vermelho, não abrando, o que poderá acontecer? Depois de um dia assim, nada mais me pode acontecer.
Ontem eu era um simples empregado de mesa, com o seu ordenado mínimo certinho, a sua companheira que mesmo sem amor o ajudava a passar as noites frias e um cesto cheio de recordações guardado numa arrecadação de que perdera a chave. Hoje não sou nada. Um homem traído pela companheira e pela vida a acelerar num rua molhada, de olhos marejados de lágrimas, a tentar fugir ao inevitável.
Travo a fundo porque alguém está na passadeira, o carro desliza e por pouco não atropelo aquela pobre alma que como eu vagueia.
Baixo a cabeça com vergonha. O vulto aproxima-se do carro. Limpo as lágrimas. Só o que me faltava, uma discussão para acabar o dia em cheio.
Faço o vidro deslizar até meio como precaução. Há uma graciosidade nos movimentos do estranho que me é familiar, um jeito que ao se aproximar começo a reconhecer. Sinto o coração parar quando me apercebo de quem é. Tantos anos passados sem uma notícia, sem uma novidade, e num dia só, é a segunda vez que nos encontramos.
Sem dizer nada, faço um gesto para ir à roda e abro-lhe a porta. Ela senta-se e eu sinto-me recuar anos. Aquele cheiro, aquele olhar, aquele sorriso, aquelas mãos.
- Onde queres ir?
- Vamos ao farol.
- Vamos...
Parto em direcção ao cabo sem pressas, como se a correria em que estive tantos anos tivesse deixado de repente de fazer sentido.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Sem Ti (R) - capítulo V
- Estás o quê?
- Estou grávida amor... vamos ter um bebé.
Sinto o sangue a fugir-me do rosto, a garganta seca, as mãos tremem-me e as palavras não saem. Todas as certezas, todas as garantias que sentia neste relacionamento se esfumam. Como um golpe fatal sinto todas as recordações daquela tarde com a Inês a invadirem-me. O verdadeiro motivo da sua partida, o porquê de não estar preparada. Deus tem um sentido de humor sarcástico. Brinca com a minha vida, faz de mim um peão nas suas jogadas, e agora, no mesmo dia, traz-me quem me abandonou, e faz-me abandonar quem eu pensava amar-me.
- Que se passa amor? Eu sei que não foi planeado mas... é um bebé, sabes que foi algo que sempre desejei.
- Eu sei, e o que vais fazer?
- O que vou fazer?
- Sim, vais abortar ou vais continuar com a gravidez?
- Decididamente és uma besta! É claro que vou continuar!!!
- Ok, eu sinceramente só quero que arrumes as tuas coisas e te ponhas daqui para fora! Vou ao café e quando voltar quero a paz que sempre desejei e que tu nunca me conseguiste ou sequer quiseste dar.
- António, não me faças isto... eu amo-te! Eu não tenho para onde ir!! Mas porque é que estás a reagir assim??
Nunca suportei ver uma mulher a chorar. Suporto melhor a minha tristeza que a dos outros. Deixo Joana num pranto, pego o casaco e saio porta fora.
A Lua, minha companheira de tantas noites, espera-me.
Deambulo mais uma vez sem destino.... sem norte e no fundo, sem sorte.
Hoje foi provavelmente o pior dia da minha vida, tal como tinha sido precisamente há 7 anos atrás.
Foi o dia em que a Inês me deixou.
Foi o dia em que fiquei a saber que não posso ter filhos.
- Estou grávida amor... vamos ter um bebé.
Sinto o sangue a fugir-me do rosto, a garganta seca, as mãos tremem-me e as palavras não saem. Todas as certezas, todas as garantias que sentia neste relacionamento se esfumam. Como um golpe fatal sinto todas as recordações daquela tarde com a Inês a invadirem-me. O verdadeiro motivo da sua partida, o porquê de não estar preparada. Deus tem um sentido de humor sarcástico. Brinca com a minha vida, faz de mim um peão nas suas jogadas, e agora, no mesmo dia, traz-me quem me abandonou, e faz-me abandonar quem eu pensava amar-me.
- Que se passa amor? Eu sei que não foi planeado mas... é um bebé, sabes que foi algo que sempre desejei.
- Eu sei, e o que vais fazer?
- O que vou fazer?
- Sim, vais abortar ou vais continuar com a gravidez?
- Decididamente és uma besta! É claro que vou continuar!!!
- Ok, eu sinceramente só quero que arrumes as tuas coisas e te ponhas daqui para fora! Vou ao café e quando voltar quero a paz que sempre desejei e que tu nunca me conseguiste ou sequer quiseste dar.
- António, não me faças isto... eu amo-te! Eu não tenho para onde ir!! Mas porque é que estás a reagir assim??
Nunca suportei ver uma mulher a chorar. Suporto melhor a minha tristeza que a dos outros. Deixo Joana num pranto, pego o casaco e saio porta fora.
A Lua, minha companheira de tantas noites, espera-me.
Deambulo mais uma vez sem destino.... sem norte e no fundo, sem sorte.
Hoje foi provavelmente o pior dia da minha vida, tal como tinha sido precisamente há 7 anos atrás.
Foi o dia em que a Inês me deixou.
Foi o dia em que fiquei a saber que não posso ter filhos.
Sem Ti (R) - capítulo IV
- Amor, temos que comprar pasta de dentes!
Não respondo. Tenho perto de 30 anos e nunca foi esta a vida que desejei para mim.
Quando era adolescente tinha sonhos. Olhava o calendário e o ano de 2009 estava cheio de sorrisos, desejos concretizados, amor, muito amor, filhos, e um gato.
Não tenho nada disso. O alarme tocou e eu acordei nesta casa despida de certezas e mobilada com todas as minhas dúvidas existenciais.
Tinha acabado de fazer amor, estava a chorar e a minha companheira dizia-me que era preciso comprar pasta de dentes. Onde está tudo aquilo que ambicionei?
Levanto-me do sofá, visto-me, acendo um cigarro e vou até à varanda.
Joana segue-me, primeiro com os olhos, depois com um toque no ombro, abraça-se a mim.
- Preciso falar contigo amor.
- Fala...
- Tenho uma coisa para te contar...
- Sempre conseguiste falar com a tua mãe?
- Não, mas não é isso.
- Então estás à espera do que? Há coisas que não podemos adiar. Vai lá telefonar-lhe
- Já telefono, espera.
- Não espero nada! Vai telefonar, ou mais uma vez vou ter que ser eu a tratar do assunto??
- Vai-te à merda... és uma besta!
- Desculpa... Desculpa... não ligues, ando com umas cenas na cabeça.
- Oh amor, fala comigo.
Puxo uma passa, afasto o olhar e as mãos dela. Olho a lua cheia... como explicar a esta pessoa que sempre me apoiou em tudo, que sempre esteve do meu lado e me deu a mão quando eu estava de rastos, que o meu coração nunca tinha sido nem nunca seria dela? E mais, que a sua verdadeira dona estava ali bem perto, no T1 do número 34...
- Deixa... o que me querias contar?
- Estou grávida....
Não respondo. Tenho perto de 30 anos e nunca foi esta a vida que desejei para mim.
Quando era adolescente tinha sonhos. Olhava o calendário e o ano de 2009 estava cheio de sorrisos, desejos concretizados, amor, muito amor, filhos, e um gato.
Não tenho nada disso. O alarme tocou e eu acordei nesta casa despida de certezas e mobilada com todas as minhas dúvidas existenciais.
Tinha acabado de fazer amor, estava a chorar e a minha companheira dizia-me que era preciso comprar pasta de dentes. Onde está tudo aquilo que ambicionei?
Levanto-me do sofá, visto-me, acendo um cigarro e vou até à varanda.
Joana segue-me, primeiro com os olhos, depois com um toque no ombro, abraça-se a mim.
- Preciso falar contigo amor.
- Fala...
- Tenho uma coisa para te contar...
- Sempre conseguiste falar com a tua mãe?
- Não, mas não é isso.
- Então estás à espera do que? Há coisas que não podemos adiar. Vai lá telefonar-lhe
- Já telefono, espera.
- Não espero nada! Vai telefonar, ou mais uma vez vou ter que ser eu a tratar do assunto??
- Vai-te à merda... és uma besta!
- Desculpa... Desculpa... não ligues, ando com umas cenas na cabeça.
- Oh amor, fala comigo.
Puxo uma passa, afasto o olhar e as mãos dela. Olho a lua cheia... como explicar a esta pessoa que sempre me apoiou em tudo, que sempre esteve do meu lado e me deu a mão quando eu estava de rastos, que o meu coração nunca tinha sido nem nunca seria dela? E mais, que a sua verdadeira dona estava ali bem perto, no T1 do número 34...
- Deixa... o que me querias contar?
- Estou grávida....
Sem Ti (R) - capítulo III
Levanto-me sem lhe dar tempo de esboçar mais uma palavra sequer ou de me voltar a cativar com aqueles verdes longos olhos e saio porta fora.
O que parecia, ao acordar, o dia como todos os outros, estava a tornar-se no meu maior pesadelo. Não sei o que sentir! A raiva, a dor e o ressentimento, travam uma batalha sangrenta com o amor, o verdadeiro amor, a saudade, a paixão e a vontade. Neste momento não me sinto, não me encontro, não sei onde ir.
O céu chora comigo. A noite já caiu e a chuva gelada invade as ruas da cidade dormente como eu. Quem comigo se cruza nas ruas não imagina a chacina que vai dentro de mim, a batalha infindável desta guerra que eu julgava já terminada.
A paz não quer nada comigo.
Chego a casa.
Enrolada na toalha do banho, com o cabelo ainda molhado, a Joana parece-me perfeita. Aquela perfeição que julgamos ver em quem, apesar de não amarmos, já nos habituámos.
Aproximo-me dela, abraço-a, beijo-a, arranco-lhe a toalha do corpo.... os nossos cabelos molhados, os dela pela água que liberta e lava, os meus pela água que recorda, emaranham-se.
Dispo-me e deito-a na cama... agarro-lhe as coxas, beijo-lhe o peito... fazemos amor, sexo, paixão, instinto animal, seja o que for, nesse momento somos um só, e tudo parece fazer sentido. Nunca uma pessoa com quem já trocámos fluidos nos poderá ser indiferente. Fica sempre parte dela em nós e parte de nós nela.
Ofegantes, sorrimos, voltámos a ter um orgasmo em simultâneo, tantos meses depois...
- Venho já!
- Eu vou para a sala.
Ela dirige-se para a casa de banho e eu sento-me no sofá da sala. As lágrimas começam a cair e eu, não as consigo conter. Talvez não queira. Talvez não mereça. Neste momento todo eu sou Inês, pois foi com ela que a minha imaginação fez amor...
O que parecia, ao acordar, o dia como todos os outros, estava a tornar-se no meu maior pesadelo. Não sei o que sentir! A raiva, a dor e o ressentimento, travam uma batalha sangrenta com o amor, o verdadeiro amor, a saudade, a paixão e a vontade. Neste momento não me sinto, não me encontro, não sei onde ir.
O céu chora comigo. A noite já caiu e a chuva gelada invade as ruas da cidade dormente como eu. Quem comigo se cruza nas ruas não imagina a chacina que vai dentro de mim, a batalha infindável desta guerra que eu julgava já terminada.
A paz não quer nada comigo.
Chego a casa.
Enrolada na toalha do banho, com o cabelo ainda molhado, a Joana parece-me perfeita. Aquela perfeição que julgamos ver em quem, apesar de não amarmos, já nos habituámos.
Aproximo-me dela, abraço-a, beijo-a, arranco-lhe a toalha do corpo.... os nossos cabelos molhados, os dela pela água que liberta e lava, os meus pela água que recorda, emaranham-se.
Dispo-me e deito-a na cama... agarro-lhe as coxas, beijo-lhe o peito... fazemos amor, sexo, paixão, instinto animal, seja o que for, nesse momento somos um só, e tudo parece fazer sentido. Nunca uma pessoa com quem já trocámos fluidos nos poderá ser indiferente. Fica sempre parte dela em nós e parte de nós nela.
Ofegantes, sorrimos, voltámos a ter um orgasmo em simultâneo, tantos meses depois...
- Venho já!
- Eu vou para a sala.
Ela dirige-se para a casa de banho e eu sento-me no sofá da sala. As lágrimas começam a cair e eu, não as consigo conter. Talvez não queira. Talvez não mereça. Neste momento todo eu sou Inês, pois foi com ela que a minha imaginação fez amor...
Sem Ti (R) - capítulo II
- Dás-me um cigarro? Posso sentar-me?
- Senta-te...
- António Duarte... há quantos anos?
- Não sei, talvez anos demais.
Sentia-me morrer a cada palavra que pronunciava. Não me conseguia desviar daqueles olhos verde mar que tanto ansiara rever. Tinha feito telefonemas a amigos comuns, pesquisado na net em sites de dating e comunidades virtuais, e nada, tinha desaparecido sem rasto. Preparara vezes sem conta o discurso que queria ter quando a encontrasse, e agora, agora tinha-a aqui à minha frente e eu não sabia o que lhe dizer...
- Não me estás a conhecer? Não acredito.... não passaram assim tantos anos!
- Claro que te estou a conhecer. Não passaram anos, mas passaram muitas lágrimas. Como estás Inês?
- Estou bem, acabei de comprar casa. Aqui mesmo. Comprei o T1 do número 34.
- Procurei-te tanto...
- Eu tinha de ir António. Não me sentia minimamente preparada. Sei que errei e que te magoei muito. Mas... perdoas-me?
A sua expressão tornou-se mais meiga. A surpresa inicial tinha passado e olhava-me agora com aquele ar receoso de quem teme a resposta a um desejo.
Acho que foi pelos seus olhos que me apaixonei quando a vi pela primeira vez no metro. Recordo-me como se fosse hoje. A estação estava quase deserta e tínhamos ambos falhado o metro por segundos... O sinal sonoro das portas fora o nosso último passo. Lembro que ela me olhou, sorriu e disse, este já era. São só cinco minutos, respondi, e, no momento em que os nossos olhares se cruzaram, os cinco, passaram a dez, quinze, vinte, uma eternidade. E, de facto, assim foi....
- Já te perdoei há muito tempo Inês. Perdoamos sempre quem amamos. O mais difícil é perdoarmos-nos a nós próprios.
- Já li O Principezinho.
- E então?
- Já sei o porquê de me chamares raposinha.
- "Tornas-te eternamente responsável por aqueles que cativas"
- Sim...
- Senta-te...
- António Duarte... há quantos anos?
- Não sei, talvez anos demais.
Sentia-me morrer a cada palavra que pronunciava. Não me conseguia desviar daqueles olhos verde mar que tanto ansiara rever. Tinha feito telefonemas a amigos comuns, pesquisado na net em sites de dating e comunidades virtuais, e nada, tinha desaparecido sem rasto. Preparara vezes sem conta o discurso que queria ter quando a encontrasse, e agora, agora tinha-a aqui à minha frente e eu não sabia o que lhe dizer...
- Não me estás a conhecer? Não acredito.... não passaram assim tantos anos!
- Claro que te estou a conhecer. Não passaram anos, mas passaram muitas lágrimas. Como estás Inês?
- Estou bem, acabei de comprar casa. Aqui mesmo. Comprei o T1 do número 34.
- Procurei-te tanto...
- Eu tinha de ir António. Não me sentia minimamente preparada. Sei que errei e que te magoei muito. Mas... perdoas-me?
A sua expressão tornou-se mais meiga. A surpresa inicial tinha passado e olhava-me agora com aquele ar receoso de quem teme a resposta a um desejo.
Acho que foi pelos seus olhos que me apaixonei quando a vi pela primeira vez no metro. Recordo-me como se fosse hoje. A estação estava quase deserta e tínhamos ambos falhado o metro por segundos... O sinal sonoro das portas fora o nosso último passo. Lembro que ela me olhou, sorriu e disse, este já era. São só cinco minutos, respondi, e, no momento em que os nossos olhares se cruzaram, os cinco, passaram a dez, quinze, vinte, uma eternidade. E, de facto, assim foi....
- Já te perdoei há muito tempo Inês. Perdoamos sempre quem amamos. O mais difícil é perdoarmos-nos a nós próprios.
- Já li O Principezinho.
- E então?
- Já sei o porquê de me chamares raposinha.
- "Tornas-te eternamente responsável por aqueles que cativas"
- Sim...
Sem Ti (R) - capítulo I
- Não compreendo essa tua obsessão por Rachmaninoff.
- Não esperava que compreendesses, aliás, duvido que compreendas seja o que for que esteja ligado ao Romantismo.
- O que queres dizer com isso?
- Nada...
Afastei-me, reparando no olhar misto de tristeza e incompreensão que me deitava.
A Joana era assim, eu não tinha o direito de a criticar. Há mulheres românticas e há mulheres que deitam os ramos de flores para o lixo. Ela era uma das últimas.
Saí porta fora, sem destino nem rumo. Queria simplesmente ser beijado no rosto por aquele vento de Inverno, de Janeiro, que tão bem sabe.
Sempre adorei o frio. Faz-me ser eu.
As ruas estavam desertas, à excepção dos cães vadios que buscavam a sua sorte com uma cadela cujo aspecto já tinha tido melhores dias. Os cães não são esquisitos, vão com qualquer uma, fazendo lembrar certos homens. No fundo, seremos assim tão diferentes? O que nos distingue dos animais é a cultura, a capacidade de nos regermos por valores, direitos e deveres e, perdido na divagação, entro no café do costume.
- Bom dia António!
- Boa tarde senhor João, boa tarde....
- Para mim só é tarde depois de almoçar
- Pois para mim é sempre tarde senhor João... e cada vez entardece mais.
- Hummm Joana?
- Que mais?...
Afasto-me para a mesa do canto. Hoje não me apetecem perguntas. Quero estar só. Fumar o meu cigarro, beber o meu café, mergulhar no meu desespero e decidir de uma vez por todas o que fazer.
Bebo o café de um trago, acendo o cigarro, puxo uma passa. Estou absorto em tudo o que vivi com ela. Todas as noites que passámos, a olhar a tecto, simplesmente a sentir que tudo estava certo. As madrugadas em que fizemos amor e as nossas respirações compassadas se uniam numa sinfonia intemporal...
Parece que foi há tanto tempo...
Envolvido, esboçando pequenos sorrisos, nem me dou conta do vulto que se aproxima de mim.
-Olá António! És mesmo tu?
Viro-me, sabendo já quem era. Aquela voz... até no fim mundo a reconheceria... senti-me gelar ao balbuciar:
- Olá....
- Não esperava que compreendesses, aliás, duvido que compreendas seja o que for que esteja ligado ao Romantismo.
- O que queres dizer com isso?
- Nada...
Afastei-me, reparando no olhar misto de tristeza e incompreensão que me deitava.
A Joana era assim, eu não tinha o direito de a criticar. Há mulheres românticas e há mulheres que deitam os ramos de flores para o lixo. Ela era uma das últimas.
Saí porta fora, sem destino nem rumo. Queria simplesmente ser beijado no rosto por aquele vento de Inverno, de Janeiro, que tão bem sabe.
Sempre adorei o frio. Faz-me ser eu.
As ruas estavam desertas, à excepção dos cães vadios que buscavam a sua sorte com uma cadela cujo aspecto já tinha tido melhores dias. Os cães não são esquisitos, vão com qualquer uma, fazendo lembrar certos homens. No fundo, seremos assim tão diferentes? O que nos distingue dos animais é a cultura, a capacidade de nos regermos por valores, direitos e deveres e, perdido na divagação, entro no café do costume.
- Bom dia António!
- Boa tarde senhor João, boa tarde....
- Para mim só é tarde depois de almoçar
- Pois para mim é sempre tarde senhor João... e cada vez entardece mais.
- Hummm Joana?
- Que mais?...
Afasto-me para a mesa do canto. Hoje não me apetecem perguntas. Quero estar só. Fumar o meu cigarro, beber o meu café, mergulhar no meu desespero e decidir de uma vez por todas o que fazer.
Bebo o café de um trago, acendo o cigarro, puxo uma passa. Estou absorto em tudo o que vivi com ela. Todas as noites que passámos, a olhar a tecto, simplesmente a sentir que tudo estava certo. As madrugadas em que fizemos amor e as nossas respirações compassadas se uniam numa sinfonia intemporal...
Parece que foi há tanto tempo...
Envolvido, esboçando pequenos sorrisos, nem me dou conta do vulto que se aproxima de mim.
-Olá António! És mesmo tu?
Viro-me, sabendo já quem era. Aquela voz... até no fim mundo a reconheceria... senti-me gelar ao balbuciar:
- Olá....
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