sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo XII

Fico a assistir à cena enquanto fumo o cigarro.
Nota-se a cumplicidade entre ambos, mas o que inicialmente pensava ser o verdadeiro pai do filho que a Joana carregava dentro de si, revelava-se agora uma mulher. Um pouco mais alta que ela, era a mais activa no diálogo. Joana ouvia-a cabisbaixa. Tinha que ver quem era.
Vou a sala, pego os óculos que uso só para conduzir e que invariavelmente ficam na mesa de apoio junto ao sofá, e volto para a varanda.
O vento sopra agora forte. O espanta espíritos dança e tilinta qual bailarina, olho o parque de estacionamento, sempre com os mesmo carros. Vazio. Onde foram? Debruço-me na varanda, olho para todos os lados, mas não está ninguém na rua. Um silêncio ensurdecedor enche a atmosfera da pequena praceta onde todos sem excepção estacionam após um longo dia de trabalho.
Viro as costas. Passo a mão pelo cabelo. Onde poderiam estar?
Sem me permitir qualquer reacção, algo me empurra contra o vidro da porta de acesso da sala à varanda. O silêncio ensurdecedor foi agora substituído por crucitar de centenas de corvos que me tentam agarrar e levar. Afasto-os furiosamente.
Deito-me no chão e rastejo para dentro da cozinha. Fecho a porta e vejo-os investirem furiosamente contra o vidro.
Levanto-me, examino-me ao pormenor, mas não estou ferido. Nem uma pena de corvo. Nem um arranhão.
De repente todas as luzes se apagam. Na cozinha, na casa, no prédio, na rua.
O silêncio de novo. Parado na minha frente, a pouco mais de dois metros de mim, um vulto. Altivo, gabardine, chapéu, olhos semi-cerrados vermelho brilhantes.
Engulo em seco. Estou em pânico mas a única reacção que tenho é,

- Quem está aí?
- Ahahahahahah já não te lembras de mim António?
- Quem és tu?
- É o último aviso. Deixa-a ir. O lugar dela não é aqui.

Nada daquilo me fazia sentido. Quem era aquele homem, o que me queria, que estava ali a fazer?
Aproximo-me dele e um cheiro forte que já tinha sentido a impregnar a sala, torna-se insuportável.

- Chega!! Estás avisado!

Todas as luzes se acendem! Ofuscado pela luminosidade repentina, levo a mão aos olhos. Quando me recomponho tudo está igual. O vulto desaparecera, o cheiro também, só o meu medo continua.
Vou de novo a casa de banho, acendendo todas as luzes no caminho.
Lavo a cara, o pescoço, os olhos, a boca. Fico a ver uma gota de sangue que me cai do nariz e resvala pela bacia deixando atrás de si um rasto macabro.

Vou para o quarto. Olho a meia luz a cama onde a Joana dorme profundamente.
Fico de pé parado, a olhá-la por um tempo que perdi a conta.
Não sei o que pensar, o que fazer. Teria sido tudo imaginação minha?
Sento-me na cama, abro a gaveta da mesa de cabeceira, tomo dois comprimidos que retiro de uma caixa semi desfeita.
Deito-me a seu lado, fecho os olhos, e deixo a fórmula química fazer o deu milagre.
O meu ultimo pensamento da noite vai para a Inês. Onde poderia ela estar?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo XI

- Onde estiveste? Estás encharcado...

Sabia-me bem aquele calor humano. Um calor humano que as paixões não trazem. O calor de quem ama pela amizade e não pelo ardor.
Joana, minha eterna companheira. Depois de tudo o que te tinha dito e feito, o amor e compaixão para comigo enternecem-me, desarmam-me e sou uma criança nos teus braços. Leva-me contigo, apaga-me a memória desta noite, o sofrimento desta vida. Sinto-me triste por não te conseguir amar.
Chegamos a casa. Dispo-me e enfio-me na cama. Não tomo banho. Quero o cheiro dela impregnado em mim. O sabor na minha boca. O calor que sinto só de a pensar nua à minha frente.
A Joana fala de algo que nem oiço. Estou longe, não quero saber.
Adoro a sua presença, a forma como me idolatra, como me ama, como faz tudo por mim. A forma como prescinde de si para me dar tudo. Preciso dela, da sua energia, para a sugar e continuar a viver no meu mundo. No mundo só meu e da Inês. Minha Inês... onde estás?

- Queres falar?
- Do quê?
- Do nosso bébé.
- Não é nosso, eu não posso ter filhos.

Silêncio sepulcral. Viro-me para o lado, ajeito a almofada, acaricio os meus cabelos, imaginando os seus dedos longos, molhados pela tempestade. Os olhos pesam-me, a alma dói-me, que vou fazer amanhã?

- Desculpa....

Não lhe respondo. É-me indiferente se dá o seu corpo a outro.

Adormeço num sono profundo. Pesadelos, toda a noite pesadelos. Gritos, sangue, eu a fazer amor com a Inês morta, caída na falésia. A Joana grávida. Um homem sem rosto, de bata, uma luz ofuscante, crianças a atirarem-me pedras. Um supermercado. A polícia. Eu a fugir num carro que não é o meu. Um grito ensurdecedor. Quero gritar, não consigo, o seu rosto, frente a frente com o meu, olhos abertos, a saírem das órbitas, uma súplica, SALVA-ME!

Acordo mergulhado em suor. Levanto-me e vou lavar a cara. A Joana não está. Onde pode ter ido, a esta hora... 03h33m... a mesma de todo os dias.
O zumbido da luz da casa de banho é insuportável. Volto para a cama.

Tento adormecer. Não consigo. Vou fumar um cigarro à varanda.
Os cães ladram ao longe e afugentam um ou outro gato. Ao longe duas pessoas discutem e esbracejam junto a um carro. O meu carro. Um arrepio confuso, de frio e espanto, faz-me estremecer.
À distância, no frio, na noite reconheço na perfeição a silhueta da Joana...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo X

Como um louco, à chuva, ao vento, ao medo e à angustia, grito de peito cheio por ela. Espreito a falésia supondo o pior, e nada. Só o vento, a chuva e o mar irado me fazem companhia.
A minha cabeça parecia explodir e o coração angustiado batia como um louco, onde estás Inês?...
Um mundo de possibilidades povoa os meus medos. A falta de lógica de toda aquela situação estava a deixar-me louco. Nem 5 minutos tinham passado desde a minha atitude irreflectida e nem rasto dela... para onde poderia ter ido.
Na estrada, único caminho de acesso, não a tinha visto. Teria caído, ou saltado? A vergonha te-la-ia levado a um acto assim desesperado?
Sem saber o que fazer, meto-me no carro e sigo para a casa dela. O facto de ser impossível ter lá chegado antes de mim, não se punha como hipótese. Um homem desesperado não pensa, age, mesmo que a atitude seja a menos lógica e mais estúpida.
Sinto que voei aqueles quilómetros.
Num instante chego à rua do número 34, que durante a tarde ela me tinha referido. Como de costume, o senhor João carregava os últimos sacos do lixo do café, mesmo ao lado da porta da nova casa de Inês e onde nessa tarde a minha vida começara a mudar.

- Senhor João.... viu a Inês?
- Olá António, vi quem?
- A Inês senhor João, a rapariga que esteve comigo no café esta tarde.
- Contigo no café? Tu estás bem António? Tu estiveste sozinho esta tarde...
- Senhor João, deixe-se de brincadeiras, isto é coisa séria. Viu-a passar aqui?
- Oh António, queres entrar e beber algo? Estás com uma cara...
- Deixe-se de merdas!! Viu-a ou não???
- Juro pela minha santa mãezinha que estiveste sozinho esta tarde homem! Entraste, bebeste o café e saíste esbaforido e nem te lembraste de pagar, parecia que tinhas visto um diabo!

Um arrepio na espinha, faz-me estremecer todo. O senhor João acreditava mesmo que eu tinha estado sozinho naquela tarde. Estava louco, só podia.
Deixo-o na beira do passeio e dou-lhe as costas. O número 34 era mesmo ao virar da esquina.
Fios de fora, pastilhas coladas, o painel das campainhas parecia tudo menos algo que funcionasse, ainda assim, a do seu apartamento estava intacta.
Pressiono uma, duas, três vezes. Insisto. Vem me à memória a impossibilidade dela já ter chegado ali. Uma imagem dela, nua, estatelada nas rochas, com mar a lavar o sangue invade-me e as lágrimas caem sem que as consiga conter.
Perdi a conta ao tempo que tive o dedo sobre a campainha. Prestes a desistir, oiço uma voz do outro lado:

- Quem é???
- Inês? És tu??
- Você devia ter vergonha! Bêbedo!!! Não aqui nenhuma Inês, vá para casa ou chamo a polícia.
- Abre a porta Inês, ou rebento-a a pontapé!
- Mas você está parvo? Já lhe disse que não há aqui nenhuma Inês, e olhe que há mais de 20 anos que vivo aqui!

O tom sincero da sua voz desarma-me. Sem saber o que fazer, sento-me no passeio.
A chuva já não cai, o vento já não sopra. O que pode ter acontecido? Será que ela me mentiu? Como foi possível o senhor João não nos ter visto? E no farol? O que aconteceu?

De braços caídos, de coração desalentado, olhos mortiços e lábios a tremer, sinto uma mão tocar-me o ombro. Um toque que tão bem conheço.

- Vamos para casa?

Sem responder, levanto-me e acompanho-a.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo IX

- O que foi isto?
- Como assim?
- Desculpa, ainda não estou em mim.
- Oh António, deixa-te de cenas, fizemos sexo, nada mais. Vá anda para dentro se não ainda nos constipamos.

Pegamos as roupas do chão, totalmente encharcadas, e vamos para dentro do carro. Ligo o ar quente e tentamos em vão secar as peças mais importantes. Boquiaberto olho mais uma vez o seu corpo. Nunca gostei de mulheres consideradas perfeitas. Demasiado magras, demasiado esbeltas. Um mulher para mim tinha que ter curvas. Tinha que ser bela e não bonita, natural mas charmosa. Inês sempre tinha sido bonita, mas agora a idade tinha-lhe trazido a beleza. Os seios já não tão firmes, as suaves rugas de expressão, um pouco de celulite aqui e ali eram o sinal que ostentava: "Eu já vivi" e isso dava-lhe um encanto único.

- O que estás a olhar?
- Eu... nada. Desculpa esta tarde ter-te deixado assim lá, sozinha.
- Não faz mal, depois de tudo o que se passou, não te podia pedir mais.
- Sim...
- Mas então, conta-me, o que tens feito? És casado? Sempre te imaginei casado e com um monte de filhos... ai desculpa... esqueci-me.
- Não faz mal. É algo com que já aprendi a lidar. Não é o fim do mundo.
- Pois não, mas há 10 anos atrás era.
- Sete anos...
- Sim isso, é o mesmo.
- Não Inês, é o mesmo para quem não os passou a sofrer. Para quem tomou a decisão de partir sem dizer nada só pelo facto da pessoa que amava não poder ter filhos. Não é o mesmo para quem contou dias, horas, segundos na esperança que regressasses e me explicasses ao menos porquê????
- Eu sei...
- NÃO! Não sabes... Sai do carro!
- O quê? Tás doido? Chove a potes, estamos no meio de nenhures!
- Sai do carro Inês! Foi só sexo não foi? Queres que te pague é? Quanto é? Quanto levas por fazer isto??
- Eu não te admito António...

Nunca fui um homem corpulento, nem com muita força, mas tinha a suficiente para a empurrar para fora do carro.
Deixo-a completamente nua, naquele descampado e nem olho para o retrovisor.
Cego de fúria, cego de desilusão, cego pelo rancor que acumulei todos estes anos parto estrada fora sem remorsos.
Como é que ela ainda se atrevera a dizer que me amava?
Todo o ódio não chega para me tirar estas palavras da cabeça "Eu amo-te", batem e ecoam, voltam a bater e ressoam ainda com mais força.
De olhos marejados de lágrimas, dou meia volta em direcção ao farol.
A chuva está cada vez mais intensa.
Paro o carro, saio para a intempérie.

- Inês!!!!!
- Inês!!!!! Onde estás?

Só os trovões respondem.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo VIII

Saio do carro deixando-a semi nua. O temporal adensa-se dentro e fora de mim. A chuva cai em bátegas intensas e os trovões dançam com os relâmpagos a mentira que tentam passar de que não são simultâneos. Eu vivi nessa mentira durante todo este tempo. O amor que desejava não existia, e o senso comum só me deixou ver o que tinha diante dos olhos. A mágoa e o desespero não me deixavam ver mais além.
Aproximo-me da beira da falésia. A minha vontade é saltar, deixar tudo para trás. As minhas ilusões, os meus sonhos, a raiva e a desilusão. Sinto-me a tombar, sem saber se é só a minha vontade ou o vento que conspira pelo meu adeus a tudo.
Sinto os seus dedos a enterrarem-se no meu braço.
Com brusquidão puxa-me, atira-me para cima do capô do carro, abre-me a camisa, e beijando e mordendo, percorre-me o pescoço, as orelhas, o peito. Demora-se nos mamilos e, roçando a dor, arranha-me com um prazer que pelo seu olhar sei que é mútuo. Despe-se toda. Despe-me todo. Não conheço esta Inês que louca de prazer me possui.
Nus, em cima do carro, ela sobre mim, alheios à chuva e ao frio, ao vento e à tempestade que ameaça subir a falésia e salpicar-nos de sal, volto a senti-la, por dentro, e sabe-me bem a sua excitação. Sabe-me bem o seu gemer que se confunde com os trovões, sabe-me bem o frio que ignoro, pois por dentro todo eu sou um fogo que se deseja libertar nela. O mar começa a uivar, as ondas a baterem no seu compasso sem harmonia oposto ao compasso em que os nossos corpos chocam uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez. A luz dos relâmpagos ilumina a sua face rosada, sinto o seu corpo contrair-se, sinto dentro dela essas contracções. Não quero parar, não consigo parar. Um onda bate lá em baixo, o céu ilumina-se com um trovão ensurdecedor, e eu, vulcão em plena erupção não me contenho mais e sou teu... minha amante perfeita. Agarro-a nos ombros, e puxando-a para baixo, sinto o orgasmo mais prolongado que alguma vez senti. Não consigo parar de tremer, não quero deixar de a ouvir gemer.
No meio da tempestade fomos um só.
Ofegantes beijamo-nos. Ela deixa-se cair a meu lado e, deitados na chapa fria de um carro velho, de olhos semi-cerrados pela chuva que cai, dizemos em uníssono:

- Eu amo-te.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo VII

A caminho do farol o silêncio é o terceiro ocupante do velho Honda que conduzo. As luzes desenham formas curiosas no alcatrão e Inês parece-me atenta a isso. Não puxo conversa, não sei o que dizer.
O rádio toca, RFM como sempre, Oceano Pacífico a esta hora.
Reconheço a voz que nos envolve vinda das colunas mais velhas ainda que o próprio carro. Norah Jones...

Something has to make you run
I don't know why I didn't come
I feel as empty as a drum
I don't know why I didn't come

Perfeito... sinto que Inês leva delicadamente as mãos ao rosto para limpar uma ou outra lágrima.

- O teu carro está cheio de pó, entrou-me qualquer coisa para o olho.

Não digo nada, não queria que se sentisse mais fragilizada ainda.
Chegamos ao farol. A noite escura, o vento a sacudir o carro e a chuva em rajadas avisava-nos que o local tinha sido uma péssima escolha. Mas neste momento o mundo à nossa volta podia desabar. O nosso reencontro estava a acontecer.

- Chegámos...
- Sim. Inês, eu...

Sem me deixar continuar, sinto os seus lábios húmidos nos meus. Não sei se é a sua saliva que me beija se as lágrimas. Mas nada me importa já... quero-a tanto. Os anos que passei de corpo em corpo em busca dela parecem-me completamente vãos. Nunca senti nada assim com ninguém.
O seu corpo está diferente nas minhas mãos. Mais solto, mais ardente, mais desinibido. O carro que tanta vezes me viu a fazer amor com esta adolescente, presencia agora esta mulher que se fez à custa de Deus sabe lá o que...
Estiveste tão distante todos estes anos, sussurro-lhe ao ouvido.
Ela pára, olha-me nos olhos, beija-me longamente e, de olhos abertos fixos nos meus, entre lábios, diz-me, estive sempre contigo...

As palavras que mais ansiara nas tardes longas à janela em que esperei o seu regresso, não me sabem a muito... No meio de tanto prazer, de tanto calor entre nós, sinto que o tempo deixou a sua marca, e afinal, o amor que pensava eterno, diluíra-se na chuva dos dias...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sem Ti (R) - capítulo VI

Entro no carro e, quando estou prestes a arrancar, o telemóvel toca.

- António, que se passa? A Joana telefonou-me a chorar, sem conseguir articular uma palavra. O que foi que aconteceu?
- A sua filha está grávida D. Cristina.
- O quê? Mas isso é... fantástico. Parabéns meu querido, mas porque chora ela? E, agora não me atende o telefone. Eu vou para aí.
- Venha sim D. Cristina, assim ela aproveita logo para lhe dizer quem é o pai!

Um silêncio sepulcral do outro lado do telefone diz-me que é melhor desligar.
As pessoas passam a vida iludidas que foram os melhores pais, as melhores mães, os melhores filhos, irmãos, mulheres ou amantes, mas quando a realidade lhes bate a porta não sabem como reagir.
Triste, arranco com o carro com destino incerto, curvo já com alguma velocidade e por pouco não atinjo o grupo de cães que ainda não perdera a esperança com a cadela frankenstein. No fim da rua há um semáforo que está vermelho, não abrando, o que poderá acontecer? Depois de um dia assim, nada mais me pode acontecer.
Ontem eu era um simples empregado de mesa, com o seu ordenado mínimo certinho, a sua companheira que mesmo sem amor o ajudava a passar as noites frias e um cesto cheio de recordações guardado numa arrecadação de que perdera a chave. Hoje não sou nada. Um homem traído pela companheira e pela vida a acelerar num rua molhada, de olhos marejados de lágrimas, a tentar fugir ao inevitável.
Travo a fundo porque alguém está na passadeira, o carro desliza e por pouco não atropelo aquela pobre alma que como eu vagueia.
Baixo a cabeça com vergonha. O vulto aproxima-se do carro. Limpo as lágrimas. Só o que me faltava, uma discussão para acabar o dia em cheio.
Faço o vidro deslizar até meio como precaução. Há uma graciosidade nos movimentos do estranho que me é familiar, um jeito que ao se aproximar começo a reconhecer. Sinto o coração parar quando me apercebo de quem é. Tantos anos passados sem uma notícia, sem uma novidade, e num dia só, é a segunda vez que nos encontramos.
Sem dizer nada, faço um gesto para ir à roda e abro-lhe a porta. Ela senta-se e eu sinto-me recuar anos. Aquele cheiro, aquele olhar, aquele sorriso, aquelas mãos.

- Onde queres ir?
- Vamos ao farol.
- Vamos...

Parto em direcção ao cabo sem pressas, como se a correria em que estive tantos anos tivesse deixado de repente de fazer sentido.